Entenda por que bebês mordem no berçário segundo a neurociência infantil. Aprenda estratégias pedagógicas para lidar com mordidas e desenvolver empatia em bebês.
“Professora, ele mordeu de novo!” — quem trabalha em berçário já ouviu (ou disse) essa frase dezenas, talvez centenas de vezes. É uma das situações mais desafiadoras e emocionalmente desgastantes da educação infantil, gerando angústia nas educadoras, preocupação nas famílias e, muitas vezes, rótulos prejudiciais para os bebês envolvidos.
Mas o que parece um grave problema de comportamento é, na verdade, uma expressão absolutamente natural do desenvolvimento infantil. A neurociência contemporânea nos mostra que, nos primeiros anos de vida, o bebê ainda está aprendendo a lidar com suas emoções intensas, regular impulsos e comunicar necessidades — e a mordida é frequentemente uma forma primitiva de comunicação e exploração.
Neste artigo completo, baseado em evidências científicas e práticas pedagógicas respeitosas, você vai descobrir:
O bebê não morde por maldade, crueldade ou “ser mal-educado”. Essa é uma compreensão fundamental que muda completamente nossa postura educativa. Bebês mordem porque ainda não desenvolveram:
Pesquisas em neurociência do desenvolvimento infantil identificam múltiplas razões pelas quais bebês mordem:
1. Exploração Oral (0-12 meses)
2. Comunicação Pré-Verbal (10-24 meses)
3. Frustração e Sobrecarga Emocional
4. Exploração Social
5. Desconforto Físico
6. Imitação
No contexto da pedagogia do bebê, compreender essas razões é essencial para evitar punições inadequadas, rótulos prejudiciais (“o mordedor”) ou reações que agravam o problema.
“Não é birra, não é maldade — é o cérebro do bebê aprendendo a existir em grupo, com ferramentas ainda primitivas.”
(Método Canteiro de Aprendizagens, Aline Benedito)
Bebês agem com o corpo e sentem com intensidade avassaladora porque:
Como detalha pesquisa do Center on the Developing Child da Universidade Harvard, a arquitetura cerebral é construída progressivamente, de baixo para cima, com funções executivas desenvolvendo-se por último.
O bebê precisa do adulto como “córtex pré-frontal externo” — alguém que:
Quando o adulto reage com calma:
Quando o adulto grita, castiga ou pune:
Quando o adulto acolhe e nomeia:
Como exploramos em nosso artigo sobre ambiente preparado e acolhimento, cada detalhe da relação educativa impacta desenvolvimento cerebral.
Vamos ao prático: o que fazer quando um bebê morde?
Passo 1: Interrompa com Firmeza e Gentileza
Ação: Aproxime-se rapidamente, separe os bebês com firmeza mas sem violênciaFala: "Não pode morder. Dói."Tom: Firme, calmo, sem gritosObjetivo: Interromper comportamento sem traumatizarPasso 2: Acolha o Bebê Que Foi Mordido
Ação: Primeiro atenda quem foi machucado
Fala: "Você foi mordido. Vou ver se você está bem. Deve estar doendo."
Ação física: Examine, limpe se necessário, ofereça colo
Objetivo: Validar dor, oferecer conforto imediatoPasso 3: Volte ao Bebê Que Mordeu (SEM Punição)
Ação: Abaixe-se na altura dos olhos, toque gentilFala: "Você mordeu. Olha, ele está chorando porque dói. Você pode usar palavras/gestos."Tom: Firme, educativo, sem raiva ou rejeiçãoObjetivo: Ensinar consequência e alternativa, não punirPasso 4: Ensine Reparação (Se Apropriado à Idade)
Para bebês maiores (18+ meses):
Fala: "Você pode fazer carinho para mostrar que se importa?"
Ação: Guie mão gentilmente se necessário
Objetivo: Iniciar noção de reparação e empatia❌ Morder o bebê de volta (“para ele sentir como dói”)
❌ Gritar ou castigar severamente
❌ Isolar ou “cantinho do pensamento” para bebês
❌ Rotular (“você é mordedor”, “criança agressiva”)
❌ Forçar pedido de desculpas sem compreensão
Conviver não é fácil — nem para adultos experientes, muito menos para bebês com cérebros em formação acelerada. Mas é justamente na convivência cotidiana, com suas fricções e conflitos, que nasce:
No cotidiano da creche, as vivências em grupo são fundamentais e inevitáveis para que o bebê aprenda a:
Conflitos não são falhas do sistema — são o próprio conteúdo da aprendizagem social. Como destaca a sociologia da infância, crianças são atores sociais competentes que negociam ativamente suas relações.
Cabe ao educador enxergar conflitos não como problemas disciplinares a serem eliminados, mas como oportunidades riquíssimas de aprendizagem socioemocional. É por meio da escuta ativa e da observação sensível que o adulto transforma o conflito em experiência de crescimento.
Mediação Eficaz de Conflitos:
Embora empatia complexa leve anos para se desenvolver plenamente, suas sementes são plantadas no berçário:
Estratégias Práticas:
Pesquisas em desenvolvimento de empatia mostram que intervenções educativas consistentes desde a primeira infância impactam significativamente capacidade empática futura.
A professora de berçário é, antes de tudo, uma educadora emocional. Mais do que ensinar conteúdos ou atividades, ela:
Conceito fundamental da neurociência afetiva: bebês não nascem com capacidade de autorregulação — ela é construída através da co-regulação com adultos responsivos.
Como funciona:
Por isso sua regulação emocional é crucial. Se você está estressada, ansiosa, irritada, o bebê absorve e amplifica esse estado.
Para regular bebês, você precisa estar regulada. Estratégias:
Durante o Trabalho:
Fora do Trabalho:
Morder, então, deixa de ser “problema disciplinar” e passa a ser:
✅ Convite à escuta do que o bebê não sabe verbalizar
✅ Oportunidade de ensinar comunicação alternativa
✅ Momento de fortalecer vínculos através de acolhimento
✅ Chance de educar famílias sobre desenvolvimento infantil
✅ Indicador para revisar ambiente e rotinas
Pergunta errada: “Como fazer ele parar de morder?”
Pergunta certa: “O que ele está tentando me dizer com essa mordida?”
Comportamento é comunicação. Sempre. Especialmente em bebês pré-verbais.
Quando mudamos nosso olhar de “problema a eliminar” para “mensagem a decifrar”, toda a relação pedagógica se transforma.
“O corpo fala antes da fala — e o educador que escuta com calma ensina mais do que palavras poderiam dizer.”
(Método Canteiro de Aprendizagens, Aline Benedito)
Mordidas geram enorme angústia familiar:
Família do bebê que mordeu:
Família do bebê que foi mordido:
Com família do bebê que mordeu:
❌ Evite: “Seu filho mordeu de novo. Está virando um problema sério.”
✅ Prefira: “Hoje houve um episódio de mordida. É normal nessa fase. Vamos juntos ensinar formas alternativas de comunicação. Aqui está o que estamos fazendo…”
Com família do bebê que foi mordido:
❌ Evite: “Essas coisas acontecem. Não tem como evitar totalmente.”
✅ Prefira: “Seu bebê foi mordido hoje. Limpamos, demos bastante aconchego e ele se acalmou rapidamente. Aqui está o que estamos fazendo para prevenir e como você pode ajudar em casa…”
Princípios:
Considere fazer encontro educativo:
No berçário há muito mais estímulos, outras crianças, necessidade de compartilhar atenção e objetos. O ambiente coletivo naturalmente gera mais situações de frustração e conflito. Não significa que sua casa ou creche sejam inadequadas — é apenas diferente a demanda social.
Mordidas exploratórias (fase oral) são comuns até 12-15 meses. Mordidas comunicativas/frustração são mais comuns entre 15-30 meses. Após 3 anos, se persistem frequentemente, vale investigar mais profundamente com pediatra ou psicólogo infantil.
Absolutamente não. Isso ensina que morder é aceitável (se adultos fazem) e usa violência como método educativo. Bebês aprendem mais com modelagem de alternativas do que com punições espelhadas.
Mordidas ocasionais em contexto de frustração/cansaço são normais. Preocupe-se se: morde várias vezes ao dia, sem gatilho identificável, com aparente prazer em machucar, acompanhado de outros comportamentos agressivos persistentes, sem melhora com intervenções consistentes por 2-3 meses. Nesses casos, busque avaliação profissional.
Converse com educadoras sobre estratégias de prevenção sendo usadas. Verifique razão adulto-criança (adequada?). Pergunte sobre padrões (sempre mesmo bebê? mesma situação?). Avalie se seu bebê tem necessidades especiais não sendo atendidas (sensorial? comunicação?). Parceria creche-família é essencial.
Lidar com mordidas no berçário nunca é fácil. Exige paciência infinita, regulação emocional constante, conhecimento sobre desenvolvimento infantil e muita, muita empatia — com os bebês e com as famílias.
Mas quando compreendemos, através da neurociência e da pedagogia respeitosa, que mordidas são linguagem primitiva, não agressão calculada, toda nossa postura educativa se transforma. Saímos do lugar de “controlar comportamento inadequado” e entramos no lugar de “educar emocionalmente um ser humano em formação”.
A professora de berçário que acolhe com calma, nomeia emoções com paciência e ensina alternativas com afeto está, literalmente, moldando arquitetura cerebral e construindo fundações de inteligência emocional que durarão a vida inteira daquela criança.
Morder deixa de ser “o problema” e passa a ser “a oportunidade” — oportunidade de educar o olhar, fortalecer vínculos, ensinar convivência e cultivar empatia desde o berço.
“O corpo fala antes da fala — e o educador que escuta com calma, que acolhe sem julgar e que ensina pelo exemplo amoroso, educa mais do que mil palavras poderiam dizer.”
(Método Canteiro de Aprendizagens, Aline Benedito)
Se você deseja desenvolver competências em educação emocional de bebês e gestão respeitosa de conflitos no berçário, conheça:
Aprenda fundamentos da pedagogia do bebê, incluindo como lidar com conflitos típicos do berçário através de práticas baseadas em neurociência do desenvolvimento e vínculos seguros. Exemplos práticos de mediação sensível em situações desafiadoras.
Aprenda a documentar pedagogicamente o desenvolvimento socioemocional dos bebês, incluindo como narrar episódios de conflito de forma educativa para famílias. Modelos editáveis de relatórios que educam pais sobre desenvolvimento infantil.
Aline Benedito é especialista em pedagogia para bebês, criadora do Método Canteiro de Aprendizagens e fundadora do Núcleo Primeira Infância. Com 9 anos de experiência prática em berçários, dedica-se à formação de educadoras que desejam desenvolver práticas pedagógicas respeitosas e intencionais com bebês e crianças pequenas.
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